ANJOS, Augusto dos. STONE AGE, Queens of the.

O morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela igneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

*****

Às vezes penso que esse pessoal está todo conectado… E sim, lembrei que tenho um blog.

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A música que não sai da cabeça…

Como não amar Frozen, gente?!

NÃAAAAO! Não a música, o filme! Embora essa música seja maravilhosa…

Falo disso aqui:

A Disney sempre se superando, né? Tiro o chapéu para essa indústria… E depois do balé, onde todo final de ano a gente apresenta algo da Disney, não tem como não ficar ainda mais apaixonada pelas histórias. Toda pessoa desse mundo merece ir uma vez na vida à Orlando para conhecer a Disney. Pena que é esse absurdo de caro… =/

Frozen fala de amor fraternal e, de acordo com as pesquisas, 99,9% das pessoas que tem irmãs, após assistirem ao filme, mandam um whatsapp cheio de coraçãozinho ou ligam pra falar “eu te amo” pra sua irmã querida. Ou as duas coisas.

Tread lightly and have an A1 day!

Dica do dia: se você estiver sem o que fazer, lave o seu carro.

Isso mesmo, vai lavar seu carro! É o mínimo que você pode fazer, minha filha. Aquela poeira não vai sair de lá sozinha… E quem sabe isso não te motiva a leva-lo para desamassar e tirar aquela tinta amarela da porta traseira? (resquícios de um inesquecível encontro do seu carro com a coluna do Millennium Shopping)?

Chegue a sua casa com esse propósito. Afinal, é importante manter a ideia viva durante todo o trajeto trabalho-casa, para que ela não morra quando você chegar e olhar para o vídeo game.

Procure no Google “como lavar carro” e observe as instruções. Mas não acredite em tudo o que está lá, confirme as informações com o seu cunhado que sabe tudo sobre carros.

Separe o material e comece antes que dê preguiça!

A ideia é fazer desta tarefa um conjunto de objetivos a serem finalizados, quais sejam:

– deixar o carro limpo;

– fazer bom uso da sua tarde;

– obter o efeito terapêutico que só uma atividade braçal consegue te dar (depois de passar o dia com o cérebro voltado para o processo civil, você precisa de um tempo para não pensar!);

– economizar 20 reais (pense no vídeo game que você tem que pagar);

***

Deixei minha cadela peluda andar pelo pátio molhado enquanto eu trabalhava, sem pensar na sujeira das patas quando ela pisava na água suja, mas apenas na satisfação de tê-la ali por perto dividindo o momento. Fiquei imunda e o carro, lindo.

Ao terminar, eu me senti bem melhor.

É porque veja bem, eu tenho uma séria dificuldade em terminar coisas. Já falei disso aqui. Sempre começo, nunca termino. Adoro criar, mas não consigo concretizar. Talvez fazer essas atividades que exigem um fim imediato (do contrário, seu carro fica sujo ou manchado ou sei lá) acabam me impulsionando a fazer as coisas que eu tenho que fazer…

E olha, deu certo. Depois de 82947 anos, estou escrevendo aqui novamente. Não é minha intenção fazer desse blog uma coisa passageira. Escrever faz bem, todos deviam tentar. Mas como todas as outras coisas dessa minha existência, ele já está(va) ficando de escanteio.

Existe um verdadeiro abismo entre querer fazer e fazer. Chegar a essa conclusão foi uma das coisas boas de 2013. Em 2014, espero encontrar algo maior que isso. Mas se não encontrar, pelo menos já sei que posso abrir um lava-jato e serei bem-sucedida (pode chamar o lava-jato de A1? #breakingbadforever).

Hoje me senti bem Grifinória: tive corajem. Tava raro esse sentimento aqui dentro…

Só mais uma coisa… As costas ficam destruídas. Mas dane-se. Trabalhar faz bem…

E aqui fica a deixa para um próximo texto de auto-ajuda post.

a1day

2.6

Quando estou me acostumando com determinado número, chega o dia 11 de dezembro e eu tenho que me acostumar novamente com a minha nova idade.

Quando criança, uma pessoa de 26 anos era, na minha limitada visão e aguçada imaginação, um adulto sábio, completo, que sabia o que queria e fazia o que queria. Achava que ao chegar aos 18 eu começaria a caminhar nessa direção e, aos poucos, iria adquirindo todas essas qualidades. Daqui do mundinho fácil mediano, cheguei aos 18 me sentindo tão adolescente quanto aos 15. Aos 21, a fase adulta se resumia a festas, festas e mais festas, uma energia para aproveitar a vida e se divertir sem restrições. Era ser adolescente com privilégios. O tempo foi passando, a vida foi passando, e eu continuei esperando. Ao fazer 25, pensei no peso que representava o “um quarto de um século” e passei a me questionar por que aquela ideia que eu tinha quando criança estava se revelando tão falha. Cheguei aos 26 e vejo um ser que muda, mas que está longe, muito longe do que eu tinha em mente.

Não houve nenhum “start” depois que me formei, tampouco depois que fiz a pós-graduação, e também não acho que nenhum botão no controle da vida vai ser pressionado quando eu sair de casa. É tudo muito contínuo, essa ideia de “minha vida muda a partir de tal fato” é uma ilusão que só funciona nos livros e nos filmes… Começamos a andar e a paisagem vai passando, não temos que esperar o anoitecer ou o amanhecer para ser tal coisa.

Ao olhar o mundo dos adultos, no qual, sem perceber, eu já estou inserida há algum tempo, pude concluir superficialmente que somos todos crianças grandes. Só que alguém achou que ser adulto era sinônimo de uma grande coisa e acabou que o adulto ganhou uma moral que ele não tem. Isso tudo na minha cabeça.

Nunca foi assim, Rebs.

Vejo um mundo de adultos inseguros e aflitos, tal como uma criança em seu primeiro dia de aula. Vejo adultos que se vangloriam por ter o carro mais caro, tal como o coleguinha rico que tem o carrinho de controle remoto e se acha melhor que os demais por isso. Vejo adultos com carreiras profissionais definidas, mas que se encontram tão perdidos na própria vida quanto uma criança perdida dos pais no supermercado. Já vi gente grande soluçando igual a uma criança que perdeu seu brinquedo preferido porque seu melhor amigo canino morreu (minha vez ainda vai chegar e eu não estou preparada para isso). Vejo homens e mulheres se casando para logo em seguida se separar, como se fosse uma brincadeira de Barbie. Vejos pessoas próximas fazendo coisas tão estúpidas e inconsequentes quanto uma criança que não sabe os perigos de atravessar uma rua movimentada. Todos os dias vejo meus modelos ideais dissolvendo-se em seres humanos cheios de falhas, que às vezes morrem sem sequer chegar perto do que eu imaginava que seria…

Vemos os nossos pais e os pais dos nossos amigos, assim como nossos familiares mais velhos, não mais como seres superiores e sabedores da verdade absoluta, mas como iguais seres humanos, cuja opinião às vezes te choca de tão absurda. O avô racista, a vovó homofóbica, a tia e o tio machistas e o bom e velho primo que fura a fila do caixa e adora falar que “bandido bom é bandido morto!”. Você vê amigos seus fazendo escolhas erradas, ou não fazendo escolha nenhuma, achando que depois disso a vida deles vai se resolver, mas na verdade entram em um ciclo vicioso de sabotagem e ficam reféns dos resultados. E ah! Aquele professor do colégio, que além de te ensinar a escrever, calcular e entender o funcionamento do corpo humano, era referência de pessoa inteligente e sábia… Mas que hoje, quando escreve algo no facebook, demonstra que estagnou no tempo e possui a opinião de alguém que nunca saiu da caixinha…

Sei que muita gente pode ter percebido isso antes dos 26, assim como tem gente que nunca parou para pensar nisso. Mas que bom que a ficha caiu pra mim. Parece que fui míope a vida inteira e só agora meus óculos ficaram prontos. As coisas estão mais nítidas.

Ressalto que falo isso daqui de onde eu estou… O que é nada diante de todo o resto do mundo. Apenas uma mera observação…

=)

O macarrão instantâneo

Sentaram-se frente a frente. Ele esperou alguns segundo para ver se ela falava, mas dela só emanava um silêncio nervoso. Decidiu começar, como das outras vezes:

– Mariana, minha cara, como estamos?

– Eu tenho uma pergunta – falou ela de imediato, as mãos agoniadas revirando-se em seu colo, revelando a silenciosa inquietação – por que as pessoas estão loucas?

Ele franziu a testa:

– Todas as pessoas estão loucas?

– Não é bem isso… Quero dizer… Por que tanta gente sofre de algum transtorno psicológico? Por que isso se tornou tão comum? Parece uma epidemia, o cérebro de todo mundo está em parafuso… Ontem uma amiga da academia, que estava sumida há mais de um mês, retornou contando que passou por uma crise. Durante esse tempo, a cada novo dia, ela acordava com uma dor diferente no corpo, e em um determinado momento ela sequer conseguiu levantar. Foi ao médico e ele disse que era estresse, que se ela não parasse o que a fazia se sentir assim, surtaria em breve. Um outro amigo passou a vida inteira pulando de um projeto de vida para outro, sem nunca concluir nenhum. Descobriu, recentemente, que tem déficit de atenção e hoje toma remédio controlado. Meu primo Tobias, aparentemente calmo, está com gastrite, refluxo e taquicardia, vive angustiado e no domingo passado começou a chorar no meio do almoço de família dizendo que odeia a própria vida. O namorado da minha irmã Luísa parece estar em uma eterna depressão, porque não estuda, não trabalha, não sai de casa e dificulta até a ida ao mercadinho, seja porque está chovendo, seja porque está muito quente. Um colega do trabalho tem certeza de que, na próxima viagem que ele vai fazer, o avião vai cair e ele vai morrer. As pessoas acordam com câncer, sem nenhuma causa aparente, mas sempre com a desconfiança de que a causa foi emocional. O que eu quero dizer é que… Por que as pessoas estão surtando? Por que, em vez de peste negra, temos crise de pânico e depressão se alastrando por aí como as novas pragas da humanidade?

Fez-se de novo o silêncio. Ele precisava apreender a avalanche de informações. Ela precisava de fôlego. As mãos dela estavam suadas, sabe Deus por que. Ele estava imóvel, inabalado com a consternação alheia.

– Mariana, observe como é a nossa vida hoje. A velocidade com que as coisas acontecem…

– Ah, não! Não vem com esse papo de “velocidade da informação” pra justificar o surto da raça humana. Tem algo além disso, tem que ter…

– Ok, essa não é bem a justificativa. Na verdade, a origem de alguns desses transtornos é a forma como o ser humano lida com essa nova configuração da sociedade. Estamos acostumados com o macarrão instantâneo e não sabemos esperar o tempo necessário para as coisas acontecerem.

– Macarrão instantâneo?

– Sim. Ou sopa instantânea, como preferir. Imagine que você trabalhou o dia inteiro e está com MUITA fome. Ao chegar a sua casa, vai à cozinha e só encontra duas coisas para comer: um pacote de macarrão instantâneo e um pacote de macarrão tradicional – um fetuccine, aquele achatadinho, que demora mais para cozinhar –. No ápice da sua fome, qual você escolheria?

– Obviamente, o macarrão instantâneo.

– Sim. Até porque sua mente está mandando mensagens sucessivas de que você precisa comer o mais rápido possível. Agora vamos modificar o problema. Não se trata mais de fome, mas da vontade que você tem de… Ser promovida! Quais as suas opções para conseguir isso?

– Não há nada a fazer a não ser esperar. Estou lá há pouco mais de um ano, as promoções não acontecem assim…

– Sim, essa é uma opção. E onde está o macarrão instantâneo que te levará à promoção em duas semanas?

Ela olhou bem nos olhos dele, entediada com o que ela mesma iria responder.

– Não existe. O macarrão instantâneo não existe. Você está igual Jesus, cheio de metáforas.

– Mas, ao menos, ilustrou a ideia. Essa é a beleza das metáforas. Veja só que interessante. Estamos acostumados com o macarrão instantâneo, com as mensagens instantâneas, com os artigos recém-publicados, as notícias minuto a minuto, os filmes que nem chegaram ao cinema da cidade, mas já estão disponíveis na internet. Meu filho de 2 anos sabe desbloquear meu tablet e chegar ao seu aplicativo favorito em menos de 5 segundos. Eu demoro o dobro de tempo e tenho 20 vezes a idade dele. Esta geração está acostumada com ritmo, velocidade. Entendeu aonde eu quero chegar?

– Pessoas mais velhas são de fato mais lentas. Somos melhores que vocês nesse novo mundo?

– Na realidade, é justamente o contrário. Como, durante o nosso desenvolvimento, não existia macarrão instantâneo, aprendemos a ter mais paciência e saber esperar o tempo certo de cada coisa. Já vocês esperam que tudo ocorra tão rápido quanto uma troca de mensagens pelo whatsapp. Mas nem tudo teve sua velocidade dobrada ou quadruplicada. Há coisas quem demandam tempo. Logo, você entra em sofrimento porque não tem seu macarrão instantâneo para acelerar a situação e alcançar logo o objetivo. E você sabe que isso não se aplica apenas ao seu trabalho, mas a todo o resto: “quando vou sair de casa? Quando vou encontrar alguém? Quando vou casar? Quando vou viajar para Londres?”. E assim por diante…

Ela mirou o chão, pensativa. Fazia sentido. Ao menos, explicava o que se passava com ela naquele momento de tantas incertezas.

– O que eu faço para parar com isso, então?

– Viva o hoje.

– Vi essa frase no Facebook.

– Pois é, às vezes sai alguma coisa boa dali – ele sorriu brevemente – mas, voltando ao que interessa, como estamos hoje?

– Naturalmente, esperando o fetuccine, doutor. E bastante angustiada por isso.